A sociedade do cansaço: ter ou ser?

A sociedade do cansaço parece ter virado nosso condomínio emocional: todo mundo exausto, mas ninguém quer admitir que está pagando IPTU demais para morar nesse lugar. No Brasil, o burnout já é considerado uma das principais causas de afastamento do trabalho. Segundo dados do Ministério da Previdência, os transtornos mentais e comportamentais, incluindo ansiedade e depressão, representaram mais de 200 mil afastamentos apenas em 2023. É como se estivéssemos tentando ganhar uma corrida cujo prêmio é continuar correndo.
O problema é que vivemos na sociedade do ter, onde o valor das pessoas é medido em produtividade, metas batidas e uma agenda tão cheia que parece até currículo. Nessa lógica, “ser” vira quase um luxo. Quem tem tempo para existir quando há boletos, entregas, reuniões e aquela sensação constante de que, se você parar, o mundo desaba? A ironia é que o mundo já está desabando justamente porque ninguém para.
O burnout, que antes era visto como “frescura” ou “falta de preparo”, hoje é reconhecido como síndrome ocupacional. E não é à toa: o Brasil está entre os países mais ansiosos do mundo, segundo a OMS, e também lidera índices de depressão na América Latina. A sociedade do cansaço não só nos esgota, mas nos convence de que descansar é fracassar. Autocuidado vem sendo tratado como um capricho e não uma necessidade básica, tipo beber água ou não responder e-mails depois das 22h.
Enquanto isso, o “ter” continua abafando o “ser”. A busca por status, bens e validação externa cria uma espécie de ruído permanente que impede as pessoas de ouvirem a própria vida. A existência fica espremida entre obrigações e expectativas, e o resultado é uma população emocionalmente exausta, fisicamente adoecida e espiritualmente no modo avião.
Um dos caminhos pode ser reaprender a existir sem precisar performar. Redescobrir o ócio, o silêncio, o descanso. Lembrar que “ser” não é algo que se conquista, é algo que se vive. No fim das contas, a sociedade do cansaço só perde força quando cada um decide, com leveza e um toque de rebeldia, que não vai mais competir para ver quem está mais exausto. Afinal, ninguém ganha nada por chegar primeiro ao próprio limite.
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